O presente artigo tem o objetivo de chamar a atenção das pessoas que têm se envolvido em discussões sobre a Segunda Guerra Mundial para uma maior conscientização não sobre o conteúdo do objeto de estudo em si, mas sobre os métodos e formas como são estudados, discutidos e abordados.

O primeiro fator que se destaca é quem você é, o que procura e onde está procurando. Por mais incrível que possa parecer, existem discussões muito diferentes sobre o mesmo assunto, e se você entrar em uma discussão orientada de forma diferente daquilo que você é, ou procura, podem haver problemas tanto para você quanto para os outros.

Vamos tentar aqui propor um modelo de divisões de tipos de discussão sobre a Segunda Guerra Mundial, e como qualquer postulado, esse modelo se encontra aberto à sugestões, apontamentos de falhas e quaisquer melhorias que possam torná-lo mais verossímil e dentro do que parece razoável e sensato.

Inicialmente, pode-se dividir os tipos de discussão sobre a Segunda Guerra Mundial em discussões de cunho mais científico e discussões de cunho mais interesseiro/ideológico. Vejamos algumas características comuns:

1. Primeira grande divisão: Interesse/ideologia x curiosidade/ciência

1.1 Discussões de cunho mais interesseiro/ideológico

A grande maioria dos horrores da Segunda Guerra Mundial (senão quase todos) ocorreu justamente e unicamente por interesse e ideologia. Isso já é suficiente para dar uma ideia do que sejam essas coisas. Na verdade, muito além dos poucos anos daquela guerra, em quase todas as outras desgraças humanas como guerras, extermínios, catástrofes, escravidões, barbáries, desde a idade da pedra até o presente momento, só aconteceram por interesse e/ou ideologia.

As palavras interesse e ideologia, são mais conhecidas no vocabulário cotidiano por seus efeitos intermediários, como: ódio racial, xenofobia, segregação, preconceito, discriminação, unilateralismo, ganância, imperialismo, imediatismo, etc. Seus efeitos terciários também são muito conhecidos: fanatismo religioso, fanatismo político, fanatismo racial, fanatismo nos esportes de massas, avareza, terrorismo, etc. Os efeitos finais são mais conhecidos ainda: guerras entre nações, guerras entre povos, guerras entre religiões, violência entre torcidas de times esportivos, violência entre pessoas de diferentes etnias e cores, violência entre diferentes orientações sexuais, massacres, chacinas e assim por diante.

As discussões mais movidas ou orientadas por essa perspectiva, ou seja, por pessoas com forte interesse e/ou ideologia no que diz respeito à Segunda Guerra Mundial, ou algo que possa criar empatia por analogia e semelhança, são tão negativas e destrutivas quanto todos os outros efeitos do interesse e da ideologia. As principais características, sinais e sintomas mais comuns que indicam se tratar desse tipo de discussão são:

I – Um elevado nível de rivalidade entre os debatentes, como se cada um pertencesse a uma lado, um time, um partido, uma causa, como se fossem oponentes, dualistas, lutadores, inimigos, etc. Muito raramente um concorda com algum argumento do outro, mesmo que em sua consciência aquele argumento pareça plausível, consistente ou sensato. O motivo é que não se está em busca de verdades comuns, mas simplesmente de defender e forçar sua própria opinião particular.

II – Um considerável nível de agressividade, expresso desde os mais baixos palavrões e ofensas aos mais sofisticados recursos literários do tipo cinismo, ironia, carnavalização, alusão, deboche, sátira, etc. Não há respeito mútuo, justamente porque não se veem como francos debatentes, mas sim como oponentes, rivais, inimigos. Existe um discurso emocional, afetado, inflado e rebuscado de adjetivos.

III – Presença maciça de métodos forçosos e desonestos para impor a opinião. Nota-se elevado número de falácias, sofismas, truques retóricos, etc. Por exemplo: atacar o autor e não o argumento; utilizar analogia incompleta; raciocínio circular; 8 ou 80, etc. Uma descrição detalhada destes métodos encontra-se em http://criticanarede.com/falacias.html

IV – Possíveis ameaças diretas: do tipo querer saber quem você é, onde mora, seu telefone, endereço, em tom ameaçador, seja de forma explícita ou implícita.

Se perceber esse sinais e sintomas em uma discussão, seja na faculdade, entre amigos ou na internet, seja cauteloso e entenda bem onde está se metendo e os riscos que isso implica. Se sua postura é diferente desta, é preferível que não participe, pois no mínimo sairá dali ofendido e desacatado, ou em casos mais severos, poderá sofrer algum ataque físico. Outra conseqüência pior, é você ser corrompido por uma oferta relativa aos interesses presentes ou doutrinado a uma das ideologias ali dominantes.

Mas em qualquer dos efeitos nocivos, se você entra bem preparado, seu prejuízo e os danos que sofra podem ser menores. Se você tem determinação realmente científica, não será doutrinado para defender cegamente nenhum dos lados da questão, se tem retidão moral não será corrompido, se é forte ou tem serviço de segurança pessoal será mais difícil te lesarem fisicamente.

O importante é você dosar aquilo que você quer com aquilo que você “aguenta” e com os perigos que aquele tipo de meio te oferece. No entanto, uma pergunta deve sempre habitar sua consciência: o que eu estou fazendo aqui?

Discussões de cunho mais curiosos/científico

A primeira diferença das discussões de cunho curioso e/ou científico é que não pode haver predominância de interesse no sentido financeiro ou aferição de lucro. Quem age realmente por mera curiosidade ou por espírito científico não visa lucros, exceto no caso do cientista profissional pago para desenvolver um estudo, e como é sabido, estudos científicos profissionais não implicam em discussões mas em um único trabalho mundial de testar e procurar inconsistência em todas as teorias e modelos existentes. Nada impede que o modelo atual e consagrado da força da gravidade seja modificado a qualquer momento, mesmo que um pequeno detalhe.

Discussões de natureza curiosa ou científica são vitais para o conhecimento humano. Ambos, o curioso e o cientista, são muito semelhantes, o que os diferencia é a erudição dos métodos e técnicas utilizados. Mas o objetivo final geralmente é o saber. No entanto, é fácil perceber quando se trata de um curioso e de um cientista, pelos métodos que cada um utiliza, pela quantidade de convenções estabelecidas e estofo intelectual.

Com isso, pode-se identificar as principais características, sinais e sintomas de uma discussão movida por curiosidade/ciência:

I – Um nível quase inexistente de rivalidade. Pode haver um pouco de rivalidade entre curiosos que pensem estar em um caminho certo, mas não haverá entre cientistas, uma vez que seu propósito, método e objetivo é o mesmo: buscar melhoras aos modelos, testar inconsistências, reproduzir eventos, provar falseamento, etc. Um bom texto sobre metodologia científica pode ser encontrado em: http://www.ecientificocultural.com/ECC3/metcien1.htm

II – Raríssimo nível de agressividade. Não há por que se agredir já que todos buscam a mesma coisa: um modelo científico. Na ausência de times, lados, raças, religiões, bandeiras, hinos e outras formas de separação, não há motivo algum para se ofender. E penso sinceramente que se ocorrer alguma ofensa nesse meio, sequer será devolvida, além de ser muito vergonhoso para quem a proferir.

III – Ausência de estratégias de convencimento. Na comunidade científica não há a preocupação maior de convencer ninguém sobre nada. Um indivíduo ou grupo faz um postulado, apresenta um modelo, e todos se prontificam para testar aquilo. Não há uma defesa apaixonada do modelo, especialmente por parte de seu criador. Esse é o que mais se obriga a testá-lo e colocá-lo em constantes provas. A ideia de que “cientistas defendem algo” provém da abordagem superficial feita pelos veículos de mídia, mas quem tiver dúvidas basta cursar uma universidade e perceberá do que se trata realmente.

IV – Inexistente ou desconhecido nível de ameaças. Utilizar linguagem científica implica em não fazer uso de adjetivos e redigir em terceira pessoa. Partir do simples para o complexo somente se muito necessário, evitar jargão desconhecido e se for o caso anexar um glossário. A ciência é para contribuir com o conhecimento humano e não somente dos cientistas. Portanto, será sempre clara e livre de recursos linguísticos emocionais e inflamados. Não há motivos e nem espaço para ofensas nesse meio.

Se você tiver a oportunidade de reconhecer uma discussão deste tipo, onde quer que seja, procure antes medir o que quer, o que sabe e o que há para você ali. Curiosos não são mal recebidos na comunidade científica, mas dependendo do ponto avançado em que uma discussão se encontre, uma simples curiosidade básica iria fazer com que os debatentes tivessem que retomar o assunto de um ponto muito anterior, e assim, você estaria prejudicando eles. Nesse caso, o mais sensato é procurar se informar bem antes ou buscar um grupo menos avançado.

Texto extraído da base de dados do extinto portal de internet do Grupo para a Divulgação do Revisionismo em Língua Portuguesa (Grupo DIRLIP)