Esse uso da palavra “preconceito”, tão disseminado hoje em dia pelos movimentos de minorias, é uma manipulação desonesta do vocabulário, que visa a criar justamente um preconceito, uma repulsa prévia e irrefletida a certas opiniões e até às palavras que as designam, de modo a fazê-las rejeitar sem exame.

“Se a falsidade reivindica a toda custo a palavra ‘verdade’ para a sua ótica, o verdadeiro de fato deverá ser encontrado sob os piores nomes” – Nietzsche

por Olavo de Carvalho

Uma suscetibilidade exagerada no que toca à honra de uma determinada nação ou raça é um sinal óbvio de racismo, ainda que inconsciente. Neste sentido, a ideologia antirracista de nossos dias fomenta os ódios e preconceitos que professa extirpar.

Certa vez, escrevi um artigo sobre as causas da ascensão do nazismo, e recebi cartas de judeus indignados por eu não ter mencionado o holocausto. Tive de lembrar aos nervosinhos que o holocausto não fôra uma causa, e sim uma conseqüência…

Percebemos aqui que este polêmico articulista não apenas professa a decadente fé holocáustica como, principalmente, é um notório “direitista” pró-Israel que julga o “nazismo” com base na sua versão deturpada e consagrada pela mídia de Sião. Isso apenas servirá como fator de legitimação ainda maior à crítica presente no texto. – NR

Reconheço que para um povo tão atormentado por perseguidores pode ser difícil conservar a calma ao falar de certos assuntos. Mas os intelectuais têm um dever para com a verdade que deve ser posto acima do amor à pátria. E os intelectuais judeus nunca pararam para pensar o que aconteceria se cada raça, se cada nação ofendida se pusesse a compulsar minuciosamente todas as palavras que alguém disse contra ela, para denunciá-las como odiosas manifestações de discriminação. Os italianos escreveriam enciclopédias inteiras de expressões pejorativas anti-itálicas; outro tanto, os chineses e os irlandeses, isto para não falar dos índios e dos muçulmanos. Apenas, eles não têm tempo a perder e sabem que o risco do empreendimento (alimentar um renouveau mussoliniano, por exemplo, ou pôr lenha na fogueira fundamentalista) é superior ao hipotético benefício. Esse tipo de compulsão neurótica e masoquista afeta principalmente os intelectuais judeus, e ela é uma desonra para um grande povo.

O sr. Jeffrey Lesser, por exemplo (entrevista no Caderno Idéias do Jornal do Brasil de 24 de junho de 1995), rotula como anti-semitismo qualquer restrição que um homem faça a este ou àquele aspecto da ação judaica no mundo. Imita, nisto, o senador Joe McCarthy, para quem qualquer crítica aos Estados Unidos era intolerável anti-americanismo.

É também absurdo rotular indiscriminadamente como “preconceito” qualquer opinião contra os judeus. Preconceito é opinião pré-conceitual, impensada, irracional. Um homem pode perfeitamente chegar a conclusões desfavoráveis aos judeus por meio de reflexão, de pensamento conceitual, mesmo que falhe e se afaste da verdade. Que uma opinião seja errada não significa que seja preconceituosa nem irracional. Esse uso da palavra “preconceito”, tão disseminado hoje em dia pelos movimentos de minorias, é uma manipulação desonesta do vocabulário, que visa a criar justamente um preconceito, uma repulsa prévia e irrefletida a certas opiniões e até às palavras que as designam, de modo a fazê-las rejeitar sem exame.

A mim, por mais que me repugne o antissemitismo de modo geral, me parece igualmente repugnante a manipulação das consciências pela distorção do vocabulário – uma técnica em que os nazistas e os comunistas foram mestres consumados.

Antissemitismo, no rigor da palavra, não é qualquer opinião contrária a este ou àquele procedimento da comunidade judaica, muito menos uma vaga antipatia que não se traduza em atos discriminatórios, mas sim uma ideologia que, formal e explicitamente, combata a nação judaica como tal, visando ao seu enfraquecimento ou mesmo à sua extinção; ideologia que, como tal, não pode ser um preconceito, mas simplesmente um sistema de conceitos errados: pode explorar preconceitos, mas não constituir-se deles. Por isto mesmo, deve ser combatida no campo da discussão clara e não no da nebulização do sentido das palavras. A extensão indevida do rótulo “preconceito” a toda e qualquer opinião que se possa emitir contra os judeus – mesmo àquelas que, como a do Gen. De Gaulle sobre o orgulho judaico, repitam ipsis litteris palavras da Bíblia – é baseada no pressuposto de que eles estão acima da crítica racional, de que são perfeitos e inatacáveis. Alguns intelectuais judeus chegaram a declarar o antissemitismo, mesmo em suas formas indiretas e brandas, como um grave sintoma psicopatológico – o que é abusar do prestígio que a comunidade judaica tem nos círculos psiquiátricos e psicanalíticos. Desde que não se expresse em atos danosos e envilecedores, mesmo a opinião antissemita professa não pode ser mais patológica nem menos patológica do que o anti-islamismo, por exemplo, que, no entanto, também assume com frequência uma conotação racial e formas violentas de expressão sem que ninguém pense em erradicá-los por métodos psiquiátricos. Admito que os judeus, pelo trauma dos sofrimentos recentes, têm direito a uma quota maior de suscetibilidades do que outros povos. Mas as pretensões descabidas só servem para alimentar antipatias desnecessárias que podem condensar-se num novo antissemitismo.

Conceitos errados existem pró e contra. Uma pesquisa como a do sr. Lesser – que, é verdade, só conheço pelo seu resumo no JB – corre o risco de perder-se na multidão de atos que colhe, desde o momento em que os ordena segundo a grade fictícia de conceitos demasiado elásticos, que expressam antes uma reflexão séria sobre a natureza e a especificidade do fenômeno que estuda. O sr. Lesser envolve nesse pacote semântico até mesmo Gilberto Freyre, o intelectual que mais fez pela democracia racial neste país. Os motivos alegados pelo sr. Lesser são de uma comicidade que só a mente rígida de um fanático privado de todo senso de humor pode deixar de perceber: Freyre é um antissemita porque às vezes emprega, ao falar dos judeus, expressões estereotipadas sobre usurários de nariz adunco, sobre sede de lucros, etc. O sr. Lesser parece não saber o que é um estereótipo: um lugar-comum infindavelmente repetido e gasto até perder toda intencionalidade literal. Do mesmo modo que Freyre usa lugares-comuns da linguagem, os judeus chamam os gentios de goyim, que originariamente quer dizer “gado”, sem nenhuma intenção consciente de insinuar que os não-judeus pertencem à espécie bovina. Assim também chamamos os alemães de chucrutes, sem nenhum propósito de afirmar que sejam vegetais. Se o pesquisador pudesse apontar trechos da obra freyreana que pregassem algum tipo de ação contra os judeus, que alardeassem, por exemplo, a inconveniência de recebê-los em nosso país, aí sim teria sentido a alegação de antissemitismo. Mas, nas páginas de Freyre, tantas são as expressões popularmente pejorativas quantas as páginas que enaltecem o gênio judaico e sua contribuição à civilização ibérica e íbero-americana. Só posso concluir que, na metodologia do sr. Lesser, antissemitismo é qualquer palavra ou modo de dizer que, intencionalmente ou não, possa magoar uma hipersensibilidade doentia. Um pouco de humor judaico não faria nada mal a esse atrabiliário. Mas provavelmente o sr. Lesser acha que as piadas judaicas sobre judeus – de Scholem Aleichem a Woody Allen, passando por Groucho Marx – são uma forma inconsciente de antissemitismo interno.

Se o sr. Lesser, em vez de destacar fatos isolados do contexto mundial e enfatizá-los retoricamente, comparasse o quadro brasileiro da década de 30 com o da França, da Inglaterra, da Rússia ou mesmo da sua pátria norte-americana, veria que, de todas as nações aliadas, o Brasil foi aquela onde os refugiados judeus encontraram a atmosfera mais limpa e hospitaleira. Nós, brasileiros, falamos menos mal dos judeus do que Yaveh fala na Bíblia. Tão pouco antissemitas éramos, que, mesmo entre nossos políticos fascistas, havia notórios defensores dos judeus, a começar por Plínio Salgado. Se há uma coisa que as declarações do sr. Lesser demonstram é precisamente que o antissemitismo aqui foi episódico, restrito e sem nenhuma importância sociocultural, ao contrário do que acontecia em quase todos os países do mundo. Se não fomos amigos perfeitos, se humanamente falhamos aqui e ali onde todos falharam muito (mas muito mais que nós); se havia aqui meia-dúzia de intelectuais anti-semitas, quando em Paris ou Londres havia milhares; se nosso governo rejeitou 99 refugiados judeus ao mesmo tempo que acolhia 50 mil, tudo isto é, na escala das realidades humanas, a prova de que, profunda e substancialmente, fomos e somos o povo, a cultura menos antissemita que já existiu neste mundo. Mas isto não contenta o sr. Lesser. Para ele, antissemitismo não é perseguir os judeus, discriminá-los, negar-lhes empregos e oportunidades, isolá-los num gueto: é simplesmente não fazer em favor deles tudo o que desejariam que fizéssemos; é não lhes dar o que não temos; é não sermos mais generosos para com eles do que somos para conosco mesmos. Medindo-nos com essa escala irreal e utópica, que compara homens com ideais fictícios e não homens com homens, ele pretende sujar com respingos de fatos um passado cuja imagem, nas dimensões de conjunto, permanece válida e honrosa. Ele mostra muitos fatos, é certo. Mas ciência não é só colecionar fatos: é compará-los e hierarquizá-los segundo uma razão ordenadora – e não existe razão nenhuma onde falta o senso das proporções. E onde falta o senso das proporções falta igualmente o senso de justiça: o sr. Lesser, reconhecendo que as organizações judaicas se recusaram a prestar socorro aos não-judeus perseguidos pelo nazismo*, omite-se de colar-lhes o mesmo rótulo de “racistas” com que nos adornou, não obstante merecido e justo no caso delas por se tratar aí de discriminação fundada em critério ostensivamente e exclusivamente racial.

Ademais, quanto aos judeus, o risco que correm no mundo de hoje vem menos de preconceitos que os outros tenham contra eles, do que do seu próprio descaso – para não dizer preconceito – ante a religião de Moisés, que definha a olhos vistos enquanto os judeus aderem festivamente a ideologias materialistas. Ante a débâcle geral do judaísmo, um judeu muito bem acordado, o sr. Yaakov Wagner, de Downsview, Canadá, perguntou recentemente em carta à revista Time: “Will the Jews themselves now succeed in exterminating their own religion, accomplishing what generations of their persecutors have failed to do?” (Lograrão agora os judeus exterminar sua própria religião, realizando o que gerações de seus perseguidores não conseguiram?). A resposta é: sim, enquanto seus intelectuais se dedicarem antes a remexer com deleitação mórbida os traumas do passado do que a enfrentar os perigos do presente. Quando vejo um intelectual judeu verberar o antissemitismo no mundo ao mesmo tempo que corrói pela crítica malévola ou pela indiferença patológica as tradições religiosas em que seu povo funda sua unidade milenar, pergunto-me se não há hipocrisia em tanto ódio ao mal desacompanhado do correspondente amor ao bem. A mania investigatória que busca sinais de antissemitismo por toda a parte é, no fundo, um sinal de má-consciência, daquela má-consciência que, para ocultar suas culpas, sai acusando o mundo. E a culpa dos judeus é clara e inequívoca: eles abandonaram o espírito da sua religião, tornaram-se interiormente divididos e inseguros, distanciaram-se a tal ponto de tudo o que enobrecia a sua cultura e fazia dela uma guardiã do sentido da vida, que hoje dificilmente conseguem escapar da oscilação entre dois extremos: ou aderem ao modernismo ateu, ou, quando se apegam à sua religião, é para rebaixá-la a um fundamentalismo rancoroso, fanático e assassino**. Quanto a esta última alternativa, cabe lembrar: ninguém neste mundo está imunizado por garantia divina contra a contaminação de uma mentalidade nazifascista: muito menos aqueles que foram vítimas dela. O homem perseguido, seviciado e traumatizado tende, por uma compulsão inconsciente quase irresistível, a incorporar os traços do seu perseguidor, disfarçando-os sob um discurso contrário. Mas isto é uma forma de possessão demoníaca a que uma consciência alerta deve resistir com todas as suas forças, para não perder, em nome da revolta, o senso de justiça que dá sentido à revolta mesma: propter vitam vivendi perdere causas.

E quando um investigador armado de suspicácia até os dentes vem rebuscar picuinhas para lançar a pecha de anti-semita sobre todo um país onde os judeus tiveram a melhor recepção deste mundo, só posso lhe responder que ele conhece melhor o cisco que está em nosso olho do que a trave que está no seu. Um verdadeiro amigo dos judeus não deve lisonjear as suscetibilidades neuróticas do seu patriotismo exasperado, mas ajudar a defender os valores eternos e universais do judaísmo, que tanto foram vilipendiados no passado pelo antissemitismo militante, como hoje pelo cinismo blasé dos intelectuais materialistas, judeus ou não, e pelos que, do outro lado, prostituem sua religião ao fanatismo nacionalista. E nenhuma acusação lançada ao passado de outros povos pode disfarçar o mal que os judeus do presente estão fazendo a si mesmos.

Se os judeus estão de fato investidos de uma missão profética, se de fato lhes incumbe ser, como pretendia Herder, os pedagogos do gênero humano, então, pelo amor de Deus, que não ensinem ao gênero humano nem aquele materialismo pseudocientífico que gerou e sustentou a ditadura soviética, nem aquele ressentimento que ontem produziu o nazismo e, hoje, deseja eternizar os conflitos no Oriente Médio.

A mensagem final é aquela que, logo antes de morrer, nos deixou o psiquiatra Lipot Szondi, um sábio judeu nonagenário, ex-prisioneiro de um campo de concentração: “O homem deve ter a coragem de ser bom quando tudo em volta o induz a ser mau.”

Junho de 1995.

* Entre os que assim foram largados à própria sorte estava o eminente crítico e historiador Otto Maria Carpeaux, judeu por parte de pai e mais visado ainda pela repressão nazista por ter sido secretário de Dolfuss, governante austríaco derrubado e assassinado pelo invasor alemão. Rejeitado pelas organizações judaicas, Carpeaux encontrou finalmente no Vaticano a ajuda que lhe permitiu fugir para o Brasil.

** Peço ao leitor observar que estas linhas foram escritas meses antes do assassinato do primeiro-ministro Rabin – um fato que manifestou da maneira mais sangrenta a divisão da consciência judaica.

Olavo de Carvalho é escritor e jornalista.

Texto publicado na obra O Imbecil Coletivo (págs. 216-223)
Rio de Janeiro, Faculdade da Cidade Editora, 1996.

Publicado na Revista Humanus.

Judaísmo, ilustração de F. Simm